Quarta-feira, Fevereiro 15, 2012

Chove nas colinas de meu vale

Ontem, sonhei contigo...
Mandava-me, junto das cartas, as fotos do céu,
O lugar da tua morada.

Chove agora porque antes não chovia
nas fotos que eu tinha, ainda tudo de dia.

É noite alta em meu vale,
Toda aquela montanha invisível
nas noites e madrugada 
molha-se com a chuva que cai, cai do céu...
enquanto vou vendo as fotos que tu me mandou...
do céu.

Acima das colinas.
As letras que diziam nas cartas repetem-se
juntos das fotos e gotas que caem do céu.

Chove agora porque antes não chovia
nas fotos que eu tinha, ainda tudo de dia,
fez-se escurecer as colinas de meu vale.

Ninguém nota as colinas de meu vale...
... imensas, vivas, eternas até o fim do céu,
donde mandara-me as fotos e a chuva que me molha.

Se subir aquela colina molhada e não escorregar-lhe
até a base, sem ter conseguido chegar no céu?
No céu, o lugar onde tudo voa e tudo é livre,
donde mandara-me as fotos e a chuva que me molha.

Chove agora porque antes não chovia,
Não saio até que possa sair
sem molhar os pés e as meias já molhadas
e repetidas.
Ir às colinas de meu vale....

eternas, imensas e vivas... ninguém percebe as colinas de meu vale.

Te ver, sem escorregar-me ou molhar-me.
Ao encontro do pico alto, ao encontro do que se prometeu.
Tu me mandou as fotos e as cartas das colinas,
que, hoje, são do céu, da eternidade que tu colheu...

Chove agora porque antes não chovia
nas fotos que eu tinha, ainda tudo de dia.

Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012

Nem sou mais jovem assim

Corre nestas veias, ainda não velhas, não mais jovens,
o pulsar lento do tempo que passou sem que eu perceba bem.
O pensar menos libertador, mais conquistador.
O tempo que antes era eterno e não havia mal algum em sonhar.
Hoje, os meus sonhos que tive, quando os vejo,
chego a rir da ousadia, da impossibilidade.
Hoje, o sonho é todo fruto de raciocínio,
que até chego a duvidar se é sonho.
Ao perceber que o grupo de jovens é dez anos mais jovem
e queira saber qualquer coisa que eu já saiba.
Ao perceber que não sei mais a matemática primitiva que aprendi
e não sei mais o que semântica significa.
Vejo que já nem sou tão jovem assim.
Até a forma de escrever envelheceu...
Tenho aquelas experiências inglórias,
tenho todas as outras experiências gloriosas.
Consigo ver meu passado, vislumbro o futuro e os dois -
os dois tempos - são tão perto de mim.
Sem admitir, estou dentro de uma couraça cansada,
com alguns fios brancos salientes e um rosto marcado.
Sem a explosão sentimental de outrora,
com o enfado da coisa nova
e todo propenso à rotina.
Eu tenho, hoje, a idade dos que não dependem dos pais,
dos que não têm tempo para os avós,
dos que têm filhos pequenos
ou dos que estão casando.
E, além de tudo, estão se cansando...
É que nem sou mais jovem assim.

Sábado, Fevereiro 04, 2012

No dia em que eu mergulhar no céu...

Ontem o céu estava azul demais.
Tão azul, que tive vontade mergulhar nele.
Ver se tinha peixinhos e corais...
Mas, aí não seria o céu, outra vez chego nisso:
No dia em que eu mergulhar no céu,
não será mais céu onde mergulhei.
Porque o que é que vai haver acima de mim?
Se conseguir mergulhar no céu,
vou ficar para sempre imerso nele
e isso já não faz sentido.
No dia em que eu mergulhar no céu...
... não contarei a ninguém,
pois, estarei louco ou com versos demais em mim...

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012

Sorriso d'Anne

Ninguém resiste a um sorriso d'Anne.
Quantos homens, um dia, desejaram ver um sorriso assim?
Quantos homens, uma noite, sonharam com tal sorriso
de fazê-los sorrir?
Tal qual uma Anne, assim.
Enquanto ela me olha meigamente com seus olhos...
... é tão verdadeiro que não acredito.
Oh, a melhor foto de todas!
Outro dia, me perguntaram como é que eu corria.
 Eu, ao que me parece mais natural, respondi-lhe:
- Com as minhas pernas.
- Como?
- É... assim...
E demonstrei como se corre.
Presumo que não fui muito claro.
No dia em que conseguir pisar no céu,
O céu deixará de sê-lo e será uma terra firme
com outro céu acima.
Ou serei esmagado pela circunstância de não haver
céu acima do céu e estar pisando exatamente onde antes
era céu e não é mais.

Terça-feira, Janeiro 31, 2012

Quem me dera eu não ser eu

Quem me dera ser o que jamais fui.
Ou o que desejei ser o que nunca vou ser.
Não porque quero não ser eu,
Sim, porque queria saber o que é não ser eu
e, talvez, enfim me definir em duas ou três palavras,
como fazem de mim, quando vou saber o que sou.
Quem me dera ter os sentidos todos plenos
Não tropeçasse nas minhas próprias pernas
e não tivesse a petulância de ter dó dos que não são eu.
Eu?
Quem me dera eu não ser eu, por alguns instantes
e sentir falta de mim mesmo.
Como aquelas meigas meninas, das quais um dia eu iludi, sentem.
Ou não...
Assim, não sobressaíam os meus fardos.
A minha falta de caráter, o meu não-ter-falta-de-nada,
Ou todo o meu desgosto destas linhas não me apresentaria,
muito menos as escreveria.
O que eu seria, se não fosse eu?
Quem me dera não precisar precisar a hora exacta
em que devo me levantar,
Não ter que percorrer todas as milhas do mundo
pra me sentir livre.
Livre de quê?
Livre de mim mesmo, ainda que por dois centésimos?
Livre mesmo de mim, a minha própria prisão?
e ainda assim, a minha própria liberdade?
Ter todo o meu prazer saciado,
aquele gosto que nunca se tem, mesmo quando acontece.
Ter o júbilo da epifania e a consagração do que não sou.
Ou, até, do que sou de uma maneira incontestável.
Quem me dera ter o bom perfume
das flores que não floresceram no meu quintal inventado
por sobre este meu jardim de cimento, pedra e areia.
Quem me dera, pois, viver em todos os tempos
e o poder morrer em todos eles.
Quem me dera eu não ser eu, por alguns instantes
e não ter aquele desejo de voltar a ser o que sou
ou o desejo infinito de ser eu, quando nunca soube o que é
Ser eu verdadeira ou falsamente - eu mesmo.

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Roubaram minh'alma

Ao Geraldo, o camisa 10 morto.
Ao Vilnei, o homem que tem só um time no coração... nem mais e nem nada mais.

"Roubaram minh'alma e não tenho a acção daqueloutros tempos,
Vendi-a ou emprestei-a, não sabia que roubavam-na,
Roubaram-me.
E não tenho aquela acção.
Sou o resultado dum homem sem alma,
um homem vil.
Troquei minha camisa com desgosto,
Troquei a minha vida.
Oh, e quantas vezes entreguei a minh'alma?
Quantas vezes estive de corpo e alma, entregue.
[entregue aos leões]
Sem ter que esperar mais nada em troca...
Ganhei tudo o que podia vencer.
Hoje, tenho remorso no meu semblante
e uma vontade perdida de ser aquele que um dia fui.
Roubaram minh'alma e vendem-na por uns trocados.

   Assinado: Geraldo, o camisa 10 de outrora"

- Adeus, Geraldo. Adeus.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

Oh, o tempo em que fui romântico

 Havia frases em todos os cantos,
um pedaço de céu e até alcançava-o,
tal qual num banquete, postava-me diante dele,
de forma que mordia-lhe, embebia-me, docemente, me enganava...
não procurava o alheamento, 
a dança fluía de acordo com o dia.
Havia fragrâncias místicas, músicas épicas,
e a natureza conspirava a favor.
Oh, o tempo em que fui romântico.
Agora, o que é que eu sou?
Um refrão repetido, um dia nublado sem tez,
um cheiro mórbido da minha estupidez,
e a cidade conspira a favor do meu destino.
Oh, o tempo em que fui romântico.
Deixava o mundo todo em minha volta feliz,
as coisas todas eram possíveis.
O que me resta daquele tempo?
Um olhar sarcástico daquilo, um vencedor ar do derrotado.
Um gole em seco, um lamentar... uma melancolia inerente?
Não. Não sou mais um romântico.
Eu e meu coração de pedra.

Sexta-feira, Janeiro 13, 2012

Houve um instante em que esqueci,
Noutro, afortunado, tratei de lembrar-me.
Tarde demais, já havia esquecido.
Oh, o tempo em que não esquecia nada...
Hoje,
Poucos são os dias que me lembro do que devo.
Devo ter perdido o senso ou a memória.
Duma forma ou doutra, esqueci-me o que ia contar...